um súbito gesto de férias: A Dama do Lotação (1978) e Vicky Cristina Barcelona (2008)
a gente não sabe o lugar certo de colocar o desejo.
em um sábado como hoje, tive um dia de gostosas atividades distantes dos perigos noturnos. assisti a dois filmes. no primeiro, buscava um filme curto para ver entre o almoço e a academia; o segundo foi uma rara recomendação da minha mãe, que assistiu, gostou e achou que eu ia adorar. a dama do lotação do neville de almeida e vicky cristina barcelona do woody allen, acabam por acaso do destino figurarem uma discussão na minha cabeçona, cada um ao seu modo, a cerca da fragilidade da família burguesa.
talvez, no lotação, o maior gesto de amor de solange para com o marido, o carlinhos (tsc), de fato seja negar ativamente se relacionar sexualmente com ele, na medida em que também é o lugar onde ela se emporcalha, se lambuza, de certa forma guardando essa suposta pureza, convertida em ausênca de sexo, para a relação oficial. é o pai, é o amigo, o rapaz da cachoeira, o que perdeu o filho, o do cemitério, com eles. a pose burguesa, o conservadorismo e a bege moralidade ficam sem roupas, como solange, fria para o seu marido.

no filme do comedor de enteada, fica manifesto um magnetismo na construção das relações, em parte pelo casting repleto de gente cheirosa de rosto: bardem, johansson, cruz. tem razão a rebecca hall ficar tão fudida da cabeça, num notável confronto entre o desejo e a racionalidade. ouvi o antonio bispo dos santos, o nego bispo, dizer que ouvia da mãe joana dele que quem tem duas tem uma quem tem uma tem nenhuma. sabe quem pensa assim também? o javier bardem nesse filme aqui. e eu, eu também penso assim. achei que fosse relevante falar.

o paralelo que faço entre um filme e outro é também com a coisa do poder, mas aqui no vicky cristina é feita de uma forma muito mais possibilitadora. ambos são contos morais, mas nesse aqui há um narrador que faz uma função informativa, planificadora, agilizando um filme que no fim das contas parece saborear pouco seus monstros em cena. se no lotação, o casamento enquanto estrutura é escancarado, aqui há um uma camada de verniz que mantém o esse imaginário do casamento em uma zona de conforto, afinal, um é uma pornochanchada o outro é um filme do woody allen com a scarlett johansson.
pouco a pouco vou retomando o prazer de assistir filmes. assisti poucos filmes esse ano por um choque na minha relação com o gesto. foi se tornando um momento compartilhado com uma relação que acabou e refletir essas relações atravessado por dois melodramas distintos foi divertido e nada doloroso. é cinema como brincadeira, como espelho, como provocação. as relações amorosas, afetivas, no frigir dos ovos também são relações de poder. e como são. me diverti pensando na minha própria prática. a monogamia é esse castelo de areia.