inicio: ateliê de criação cênica 3
quero começar a registrar aqui dia-a-dia.
estou de volta ao curso de teatro para terminar o bacharelado. o tempo urge e hoje foi o primeiro dia de um grande desafio: o retorno ao 3M como estudante. quero ater meu foco no trabalho de ator, respeitar o processo e fazê-lo com vontade. penso que em um momento como o de agora, tenho a chance de me jogar no processo de criação como talvez eu nunca tenha feito durante a graduação. passei por coisas que, se não me mataram, haverão de me fortalecer.
o corpo docente da disciplina conta com a professora mara leal e whander allípia como estagiária docente em seu processo de doutoramento. presente também o dramaturgo do curso, luiz leite.
as segundas são sempre meio difíceis. fui a academia pela manhã, corri atrás do almoço e cheguei à sala ana carneiro com um breve atraso. quero evitar que isso aconteça com frequência.
ao chegar em sala, uma roda já está feita com quase todos os colegas. vejo alguns amigos e isso faz bem. já faz um tempo que não frequento o bloco e parte dos meus receios estavam na coisa de ficar sozinho demais, isolado. contar com rostos conhecidos é menos mal.
whander conduz com uma dinâmica que reveza momentos de criação corporal com uma escrita rápida acerca dos desejos e intenções para a disciplina. a cada exercício coletívo, no intervalo entre eles, escrevemos em um bloquinho de notas, uma só palavra: um desejo, relativo as nossas vontades, referências em relação a linguagem, encenação, materialidades, textualidades etc, tudo isso nos foi solicitado.
gosto muito da condução de whander. há uma leveza que ela foi conquistando durante sua jornada como professora que não é exatamente comum, se pensarmos que ela não deixa de ser rigorosa. gosto desse equilibrio.
caminhamos pelo espaço, jogamos e agarramos bolinhas, jogamos casa-parede-morador-tempestade, atacamos uns aos outros em duplas e fizemos uma coreografia, sempre em oito tempos.
das coisas que escrevi eu não lembro muito bem, mas já ao final do encontro, sentamos em roda e cada um foi verbalizando seus desejos de maneira mais aberta. lembro algo do que escutei e lembro também o que eu disse. muitos falando sobre linearidade da cena, narrativas com começo meio e fim, personagens, desejando trabalhar com essas formas. percebo que as linguagens mais exercitadas na contemporaneidade não são as preferidas do pessoal. um certo conservadorismo? talvez.
vendo a expressão de todos, escolhi falar mais ao final do momento sobre o meu desejo: falar sobre trabalho. creio que é um assunto que reúne todos nós; é o grande motivo do mundo estar como está e o trabalho permeia todas as nossas relações no capitalismo. é bastante abrangente. li também dois textos: uma poesia sem título do meu grande amigo rafael michalichem e primeiro levaram os negros, de bertold brecht. gostaria de ter referenciado também, mas me faltou a oportunidade: os filmes arábia, de affonso uchoa e trabalhar cansa, de juliana rojas e marco dutra.
para a aula de amanhã, instrumentos musicais e materiais para desenho.
deixo aqui também o texto de brecht:
Primeiro levaram os negros
Mas não me importei com isso
Eu não era negro
Em seguida levaram alguns operários
Mas não me importei com isso
Eu também não era operário
Depois prenderam os miseráveis
Mas não me importei com isso
Porque eu não sou miserável
Depois agarraram uns desempregados
Mas como tenho meu emprego
Também não me importei
Agora estão me levando
Mas já é tarde.
Como eu não me importei com ninguém
Ninguém se importa comigo.
espero chegar até o final. fevereiro de 26. que eu tenha força e resiliência.
#t