é início, mas já é processo
terça certamente será dos dias mais corridos. o momento do ateliê é sanduichado pelo trabalho. dou aula de manhã e a noite. são poucos horários, mas o deslocamento é a grande medida do cansaço.
improvisei um almoço com o que tinha e parti para a aula. dessa vez, fui pontual. pontualmente as duas e pouco, deixei meu ego e meu par de sapatos no canto da sala. exercício diário.
começamos os trabalhos com um quadrado. ao invés da clássica roda ao centro da sala, dessa vez um quadrado. uma vez formado e compreendido, fizemos uma partitura breve, com agachamentos, sempre em contato com o outro pelas palmas das mãos. dançamos. quebramos.
whander sempre nos lembra da quebra. é essa a palavra usada para quando zeramos o corpo e voltamos a um certo patamar de normalidade e verticalidade da forma. é na quebra que resetamos o pensar e reelaboramos outras formas corporais. sinto que na repetição, na constância, desgastamos o óbvio em busca do que nem nós mesmos sabemos que éramos capazes. o trabalho de atuação sempre se enriquece no desequilíbrio.
mão, pé, braço, umbigo, pedra, pneu. arnaldo antunes e sua interpretação inconfundível. mas dessa vez, quando antunes fala de mão, não é do castelo ra-tim-bum. talvez goste de mãos o arnaldo. dançamos essa maluquice divertida buscando fazer o que a música mandava. sim camisa! um jogo que pede raciocínio rápido. uma vez estimulado, faça a ação o mais rápido que puder. pá pum. óculos camisa comida espuma palavra.
repetimos dois jogos do primeiro dia e também a coreografia em oito tempos. criança-adulto-idoso-monstro! e o jogo da bolinha. tudo flui melhor na repetição. é a natureza do nosso trabalho e não há como fugir. é no desgaste que as coisas aparecem. me vejo em movimento e em evolução quando as coisas ganham essa qualidade, quando se acredita no tempo das coisas.
o que aconteceu de novo foi o que fizemos com os instrumentos musicais e os materiais de desenho. whander propôs um jogo composto por algumas etapas. chamou de som, imagem e movimento. os instrumentos ficaram dispostos ao centro da sala e em cada etapa, uma banda conduziria a sonoridade, sem intenções exatamente musicais. a tarefa era de improvizar algum som, afim de influenciar um desenho breve, linhas e rabiscos no papel. o dono do desenho favorito era escolhido para improvisar com o corpo o que o som propunha. pinçamos o movimento que kleber construiu a partir dos rocambole de estímulos; a ver se aproveitamos futuramente.
em exercícios como esse, com grande potencial de criação para a cena, é preciso pensar em uma dinâmica mais briosa, com mais vontade de ser vista. claro que nem tudo será cena, as coisas não são definitivas e, sobretudo no começo, lidamos com o fugaz. contudo, desleixo não dá.
talvez o grande desafio do encontro: criar usando emoções humanas como disparador. como fisicalizar emoções sem estereotipar? e sem ser apenas um exercício que busca retomar a memória das emoções?, interno demais, por vezes. cada ator recebeu uma emoção diferente e experimentamos começar com pouca intensidade e ir desenvolvendo, crescendo essa emoção. tudo acontecendo no corpo. sinto que o desafio é tirar da cabeça e ver como é para o corpo. impossível dissociar um do outro, mas quero dizer com isso que é preciso buscar o que o corpo sente, muito mais do que o que a cabeça interpreta. o que acontece com meu corpo quando sinto culpa? inveja? angustia?
no fim do que importa, direcionamos a aula para uma conversa necessária, mas confesso que achei meio enfadonho. discutir funções e o espaço para realizar as funções de desejo de cada um. isso é muito importante! mas senti que ficamos rodando rodando rodando num lugar meio infrutífero. normal. são muitas cabeças pensando e tentando o melhor para si e para o processo. as vezes, não dá pra conciliar tudo.
feliz de voltar aos trabalhos como ator. talvez o que mais me faça bem na prática do teatro é que a minha indecisão não tem espaço. não há certo e nem errado e é por esse caminho que eu talvez me encontre. a palavra que eu peguei no jogo das emoções foi justamente a palavra culpa, que tenho reconhecido tanto em mim. amiúde, desejo que a culpa vá embora e que eu encontre outra forma de ser.